A ave no labirinto de mim

Caminhando em loucos descaminhos

Como um eterno fugitivo

Numa estrada triste de um fim(?)

Optando por egos mesquinhos

Tive a impressão de estar vivo

Mas foi só um suspiro velho

Escapando de mim.

Assim, um ramo perdido no quinto dos infernos

Ainda respiro, ainda sinto a dor que se sente

Quando se foge do passado, de meus demônios internos

Me invade a lágrima que não costuma cair

E mente, quando diz que não sabe de onde vem.

O céu pesado caiu, e não havia mais você aqui.

O céu eu sempre segurei.

Meu problema é aguentar o peso do céu em mim.

Como uma ave livre

Mas presa à falta de alguém.

Sem árvore, sem pouso, sem um ninho.

Nao tive a intenção de iludir

Mas achei que minha vida me permitiria

Continuar a fingir

Nesse caminho triste de um homem

Acostumado a deixar ir

Acostumado em não sentir

o fim

Acostumado a perder

E a fugir.

Cavalos marinhos

Sonho seguidamente com enredos completamente diferentes onde sempre me visto de alguém e fujo.
Fujo mentindo sobre quem sou até que eu mesmo acredite.
Trágicos finais inacabados sempre denunciam quem se escondia atrás da roupa falsa e eu acordo.
Sonho que sou um mistério que esconde uma grande solução, mas termino por me denunciar inútil em um pequeno erro que calculei mal.
Sonho que sou uma transexual vinda de outra cidade e me visto de timidez, mas em meio à um tiroteio de pessoas que conheço, sou agredida, exposta e preciso fugir, mais uma vez.
Sonho com minha mãe numa casa de infância que nunca existiu, lotada de amor e familiares brincando uns com os outros, fazendo piadas internas de uma família que simplesmente não era, mas preciso repentinamente fugir da raiva de meu pai, que essa existiu e também me fez fugir.
Sonho que viajo para um país da Europa, fugindo de importantes decisões em meu país, para que tentasse viver uma vida normal, como nenhuma é, mas acabo fugindo do sonho e acordo.

Ao acordar finjo que não sei do que os sonhos se tratam, principalmente por não crer que sonhos se tratem de alguma coisa e fujo de seus significados, fujo até mesmo da possibilidade de deixar seus significados absolutamente inexistentes me dizerem como parar de fugir.

Fujo do presente em crises de morte.
Fujo do passado fugindo no presente.
Fujo do futuro quando a fuga do passado me mantém imóvel, fazendo minha mente fugir de pensar no que mudaria minha vida.

Fugi da minha Vermelha
Fugi de minha cidade
Fugi de minha família
Fugi de casa até que não pudesse mais dizer que tinha uma
Fugi infinitas vezes de meu pai com uma cinta na mão – que também fugia –
Fugi de meus enfermos fazendo de conta que eles não existem
Mesmo não sendo forte como todos sempre acharam
Mas fujo também da minha força de quem chegou até aqui sozinho
E fugindo.

E quando derradeiramente percebi
que nada fiz até hoje
além de fugir
Eu já havia fugido para os 4 cantos
que alguém é capaz de sonhar.
Nao havia mais porto seguro
Nao havia mais casa arranjada
Nao havia mais esposa precoce
Nao havia mais um peito para me esquentar
e me esconder, um peito que também era cansado
de tanto fugir.

Agora não sei mais para onde fugir
nem como escapar
de mim
Talvez cavalos marinhos
me ensinem onde procurar
uma fuga que nunca tive coragem de escolher
Um caminho que sempre vislumbrei
Sobre o qual sempre escrevi
Mas pelo qual nunca quis de fato trilhar
Um último grão de areia
Especifico
A procurar
No fundo do mar
Sem encontrar jamais

Eu sempre fugi
Mas até aqui
Fui baseado em dores reais.

Um nome é só

Estou só, sempre estive, todos sempre estão.
nasci só embora minha mãe me tenha empurrado, chorei só embora tenham me batido, olhei ao redor só embora tenham me dito para onde olhar, reconheci quem me deu à luz só, embora ela tenha me segurado e dito que era ela à quem eu chamaria de mãe.
Me alimentei só embora tenham me dado de comer, dormi só embora tenham me dado sossego, despertei só embora tenham me perturbado, me recuperei de enfermos só, embora tenham me dado medicações.

Sempre que me permito perceber a realidade, estou só, sempre que procuro quem me diga como sentir, só ouço as palavras e o eco da solidão.
Sempre que preciso dividir minha existência, só encontro o abismo que me observa de longe e profundamente me julga por ser só.
Toda maldita vez que bebo até que esqueça que não há ninguém que vive em mim além de meus Eus, percebo no fim da garrafa meus olhos distorcidos, meus demônios, minhas dores, minhas fugas e eu, novamente só.

Cansei de fugir, mas é só o que sei fazer.
Cansei de ser só, mas é só como sei viver.
Cansei de mentir para mim, mas só sei viver assim, fugindo, mentindo, lembrando do tempo em que eu achava que não era só.
Não sei se me falta força para enfrentar meu eu só, ou se falta coragem para admitir que de fato sou só e que um dia pararão de ser eu por mim.
Outros Eus se criaram em mim cada vez que precisei assumir minha solidão, transformei minha realidade em outra em todo momento que notei que não sentia mais meu coração. Para que não desistisse de mim, mudei mil vezes de endereço, troquei meus adereços, escolhi novos apreços e continuei só, eu e meus tropeços, que não são alguém.

Não sei parar de fugir, talvez tenha perdido no mapa a única ilha que me fez aguentar o fardo de saber que sou só, a única trilha que me levava para mim sem me maltratar, a única sina que guardava para não me matar.
Talvez tenha escondido de mim, a única parte triste que me fazia ser minimamente menos só.
Talvez tenha aberto mão da minha inspiração perpétua, talvez não haja mais motivos para ser só e precise agora então ser um com as estrelas.

Me sinto só como poucas vezes me senti.

Não quero ter certeza uma última vez

As vezes minha poesia me abandona.

As vezes meu bom senso me abandona.

Minhas paixões me abandonam, minha filha, meu amor próprio, meu pai, meu passado.

O normal é ser abandonado.

O normal é ser esquecido.

De todos que te conheceram, quantos lembram de você?

Me abandonam nas esquinas, nas mansardas, nas latrinas, nos andares, nas escadas, nas escolas.

Abandonam minhas músicas, abandonam meu olhar, abandonam o que eu amo, abandonam meu andar.

Fogem de mim os pensamentos firmes, aqueles que me proíbem, não me dizem o que fazer – eu não faria mesmo que dissessem -.

Me escapam as palavras, as ideias, livros milenares, revoluções que não escrevo, histórias que desisto: a menina no país dos espelhos, o jogo que não começou, o conto de uma fala só, o suicídio após o monólogo de si com deus.

Muito mais perco do que faço, muito mais livro-me do que vivo, muito mais cuspo do que trago.

Me perco do que já vi, do que senti, do que bati nos cinzeiros, me perco de ti, do que menti, daquilo que exagerei só por não lidar com meus erros.

Me livro involuntariamente do que me faz mal, me cerco do que atenta contra o diálogo formal, absorvo aquilo que não me alimenta, daquilo que é abismal

de mim.

Queimei meu calendário, afoguei o meu relógio no Aquário, as horas perdi na gravidade do ralo, os dias dei ao primeiro mês que me deu liberdade o suficiente em troca.

Abandonei tudo o que era eu, hoje me procuro em ruas que ninguém sabe onde são, em destinos que me dizem: tenha medo do que te dá tesão.

Um dia terei que me abandonar também, como fizeram comigo, como fiz com tudo convém.

Ou abandono eu, ou que de uma vez me abandonem.

Retrato de uma cidade morta

Onde estão as pessoas?

Memórias que apago

Resquícios que nego

O pó

O novo suicídio da tristeza

Involuntário

Histórias moribundas vindas de bicicleta

6 mãos, o pedido

A chuva alagando a rua

A ansiedade

O pó

O pedido, não vou aguentar

A possessão da história que para mim já estava morta

A ansiedade, o fio vermelho que não se rompeu

O capitalismo encaixotado e selado com um laço azul de um céu azul, vestindo mulheres de produtos que só servem para se olhar e eventualmente desejar boa noite, um bom trabalho

Homens sendo homens

A ansiedade

Por favor, cale a boca! eu preciso chorar!

Vá embora, me deixe em paz!

A chuva subindo pelas pernas

O whisky doce no copo quebrado

A vontade escorre

A ansiedade

O pó

Preciso parar

Jamiroquai não cumpre seu propósito

Nao me sinto bem

A ansiedade

O pó

O fim da felicidade cristalizada

A ansiedade

A ansiedade

A ansiedade

A vitrine sexual que nada proíbe

Traumas de infância se aliam à ansiedade para me fazer rasgar ainda mais meu bom senso.

Salteadores da razão perdida

Perdidos e enjaulados

Onde estão as pessoas?

O sexo

A chuva foge pelas pernas dela

A ansiedade

Eu ainda espero

Mas não sei onde estão as pessoas.

Hoje eu quero dormir só

A vida me entristece à viver.

As tristezas são sempre o assunto mais recente

Traições são sempre a tragédia mais moderna

O filme é sempre de terceira

A alegria é sempre induzida

A indução é uma das mais caras

O que te faz chorar sempre te aliena

O que te faz feliz sempre te traz pena

Nao há quem me diga o que condena

Nao há quem ouse tirar as mascaras

Os que tem uma lei não a seguem

Os que não tem, não precisam dela

Nao há o que me ligue ao mundo

Falo de ligação real, aquela que te impede de pensar em desistir, aquela que não te deixa pensar na não possibilidade.

Simplesmente não há.

Já sei que quase todas as conexões serão superficiais e que muitas delas me farão mal

Já sei que o ser humano não era, mas se tornou parasita, predador de si mesmo, a única espécie que causará a própria extinção, o único ser que não aprendeu harmonia.

Já sei que o dinheiro me impedirá muitas vezes de viver, que muitas vezes irá me matar e me obrigar a viver outra vida, sem me perguntar se tenho outra vida para gastar, sem querer saber se estou disposto a mudar.

Ja sei que para amar eu preciso prometer, e que se não houver a promessa, o amor irá cessar, e que não há opção, que não haverá pesar dessa vida que vive a me obrigar.

Ja sei que esse poema nunca será lido, que não mudará vida alguma, que não será abrigo para quem já sabe o que eu sei.

Ja sei de tudo isso.

Só não sei porque continuar.

Hotel Azul

23 de dezembro, 2:48 da madrugada, a vista da praia a noite era mais bonita do que durante o dia. Não que ele soubesse disso, pois passara desde o dia em que chegou no hotel trancado em seu quarto, número 28, no fim do corredor defronte ao elevador.
Saía por minutos durante a tarde para receber o serviço de quarto, era quando via a luz do dia, passava na máquina de porcarias comestíveis, olhava de nariz torto para tudo, comprava qualquer coisa de gosto forte e voltava para o quarto, rápido o suficiente para encontrar a camareira saindo de seu quarto, hoje pela quarta vez com a mesma expressão de pena que fazia com que ele quisesse deixar de existir, não morrer, deixar de existir.
Era evidente seu comportamento depressivo, dias no escuro, trancado, sozinho num hotel não-muito-movimentado de beira de praia, no outono.
Ou ele desesperadamente procurava alguma coisa, ou desesperadamente fugia de alguma coisa, que parecia sempre se fazer presente.
Ele só saía a noite, somente os funcionários noturnos do hotel o viam.
A vista da praia era mais bonita a noite do que durante o dia, mais triste, mais real, quer fosse pela sua forma melancólica de ver o mundo, quer fosse por gostar de solitude, ou simplesmente porque não havia ninguém, era o som das ondas, a areia e a imensidão, a do universo e a dele mesmo.
Talvez não haja na natureza nada que traga mais essa sensação de auto-conserto interno que é: ouvir o mar sozinho a noite;
Ele sabia disso, gostava dos primeiros dias de outono, como uma obsessão Poulainiana, pois é quando a iluminação natural dos dias começa a migrar de um tom alaranjado para entrar em um tom azulado, sua cor favorita.
É quando o vento fica frio o suficiente para se sentir mas não frio o suficiente para doer.
De dentro de seu quarto via tudo com uma nitidez absoluta, talvez por isso saísse pouco, talvez por isso falasse pouco, talvez por isso tivesse poucos amigos.
A vista da praia era mais bonita a noite do que durante o dia, e ele não tinha muito mais o que dizer para si mesmo.
Ele sai de seu quarto, camiseta branca e shorts preto, pés descalços, os cabelos voavam atrás dele, sai pela porta da frente e caminha até um ponto na areia que ficava poucos metros longe da porta do hotel azul.
Ele senta na areia, acende um cigarro, tira seu cantil do bolso e põe na areia ao seu lado, junta uma concha branca do chão, a olha por alguns segundos, viaja por instantes até sua infância, – instantes que poderiam ser horas, ele não haveria notado – e a atira no mar como um pedaço de sua dor retirada de sua aura triste, a arremessa longe na água, na esperança vã de que o sal limpasse o pedaço arremessado e o mar o trouxesse de volta.
– O Natal me fode.