Mentevoando em versos curtos

Se um dia estudarem minha vida

Podem saber que nasci chorando

Talvez prevendo o mundo em que vivi

E que morri num susto

Gargalhando e rindo

Virando um pote de açúcar

Em um sunomono

No qual eu deixei

Tudo cair

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Areias nascidas de cinzas, tremem meus pés enquanto ouço o chamado da mãe do oriente.

– O que há aqui?

Eu já obedeci

É dito que o amor transcende o tempo e o espaço, e que um amor carregado por alguém que só poderia ser humano, pode ir até outro tempo, outro lugar, que seja além de qualquer fronteira do nosso universo, ou até mesmo fora dele, e tudo isso sem sequer ser tocado.

É dito que enquanto quem ama permanecer vivo, o alvo de seu amor pode absolutamente estar em outro universo, ainda assim, o amor estaria vivo.

É dito que quem ama pode viajar por todo o tempo e por todo o espaço, dessa forma abstratamente exata, e mesmo assim, permanecer amando.

Não se sabe porque nem como, mas o amor é algo que somente dois seres humanos podem comungar, e que a saudade, palavra essa que sou um poeta privilegiado por poder a usar, é o mel amargo que escorre do amor.

Eu acho – porque não tenho certeza nenhuma – que de vida em vida, tu és um pouco do pouco que carrego de uma para outra.

Quase sempre morro de uma vida para outra, sobram-me no máximo, rastros mortais que indicam-me para que lado seguir e o que devo sentir dalí em diante.

Mas tu permaneces viva e intocada em mim, tu ainda é o polo magnético que guia minha bússola.

Tu ainda é meu norte.

Acho que nada hoje é capaz de tocar meu amor pelo que tu foi

E segue sendo

Mesmo não estando… E doendo

como sempre dói

como pouca coisa dói

O que carrego de ti em mim, vai me fazer existir para sempre, Rosa.

Sinto sua falta, mãe.

Tirado Do Instante

– Qual o problema com ela?

Ela é idealizada, você não pensa, você fica retardada quando a vê.

– Eu amo ela, será que vocês sabem o que é isso?

Não, você não a ama, ela é idealizada.

– Você não sabe de mim melhor que e…

Você não a ama

– Me deixa viver

Viva coerentemente, evite riscos desnecessários, Você magoa as pessoas

– Eu nunca, nunca em toda vida magoaria ela

Mas nós sim

– Vocês são monstros

Você também é

– Ela é perfeita

Pode ser, mas é indiferente.

– Ela estava tão perto… Eu quase…

A toquei novamente.

Seu romantismo me dá ânsia

– Vocês já estão mortos

Você também

– Eu sou a única que vive aqui, eu estou aqui há muito mais tempo do que vocês, eu conheço ele melhor do que vocês, vocês não fazem ideia do que ele ama de verdad…

Não?

– Não, não sabem, existe mais do que seus números chatos e seu existencialismo infinito, isso machuca, muito.

Machuca, mas é a verdade.

– Como vocês convivem com os pensamentos de vocês?

A gente olha para as estrelas e esquece do tamanho real do sofrimento que os pensamentos causam.

– Você também é romântico.

Sim, mas o romantismo entre eu e você é tão distinto que poderia-se dizer que é outro sentimento.

– Vocês não podem falar sobre sentimento, eu sinto.

Por mais incrível que pareça, nós também

– Até o sentir de vocês é chato e infeliz

Todos somos infelizes, Sharon, você só ainda não entendeu o que é felicidade e o que não é.

– Eu sou mais velha que vocês, teoricamente…

Teoricamente, mas você sabe que não é assim que funciona.

– Funciona como eu quiser que funcione, ele me ama

Ele ama você como você ama a Maria.

– Vocês são monstros

Você também é.

Oblívia-me

O esquecimento é cruel, o é mais cruel que a indiferença, pois ao ser esquecido, você guarda, geralmente num baú trancado, a memória de que um dia já foi lembrado.
O esquecimento conserva lembranças sanguíneas que perturbam o sono profundo, a percepção rasa e a vida, guarda-as como à um um colar precioso, como o Coração do Oceano perdido no fundo de um mar desconhecido e antigo, mas absolutamente existente.

Malditas memórias, saltitam meu quarto, quebram os espelhos nos quais já não me vejo mais, abafam internamente a dor universiva que é, pertencer ao esquecimento.

E mesmo que o quisesse estampar em todos os jornais a cruz que deus nenhum me deu – e por isso é tão pesada – mesmo que quisesse me pintar de palhaço com uma máscara triste, não veriam nem palhaço, nem tristeza.
Mesmo que quisesse gritar até que não houvesse mais eu dentro de mim, mesmo que quisesse espalhar a minha dor derramando seu sangue, não ouviriam os gritos manicômios de dor, nem minha voz.
Por mais que houvesse força no que explode de mim com o ímpeto do início de tudo que é indefinido, que contasse cada estrela e desse cada uma à um miserável da rua de qualquer lugar que ninguém sabe onde é, não veriam a imensidão, nem a miséria imensa de si mesmos.
Ainda que eu criasse inteiros, ou que fossem meios de te fazer sentir o que há décadas me mantém vivo, não verias à mim, nem ao sangue.

Não há o que se faça, e talvez seja esta a morte, não fazer nada sobre o que não há o que ser feito, não dizer aquilo que ninguém ouvirá, não sentir aquilo que chamam superficial, não querer aquilo que não tem valor, não tentar aquilo que doido algum jamais ousou, não dar aquilo que não se tem, talvez seja esta a nossa morte e a morte dos outros.
Talvez seja esse o cadáver, dizer pra si o que o outro não quer ouvir, amar só àquilo que engrandece, errar somente onde é permitido, pisar somente a terra que lhe deram, talvez seja mesmo esse o cemitério de todos nós.

Talvez seja o esquecimento o mais poderoso de todos os sentimentos, pois livra-te de olhar, abstém-te de viver – que seja por segundos – a amplidão de uma dor que não conheces, mas deverias conhecer.

O esquecimento não tem nome, mas tem morada, vive entre aqueles que não vivem mais, procura arbitrariamente os mais fortes que acham que não aguentam em si o pecado real do esquecimento, mas que são quem mantém vivo o mundo, são quem, no ócio honrado, se derramam em tintas e letras e danças e amores.
O esquecimento dorme ao meu lado, o percebo me acariciando com uma Rosa de pétalas de aço, perdida na estrada, mais perfumada do que espinhosa, mais linda e vermelha do que o sangue alvo que escorre de meus olhos sobre estas linhas mal escritas
E esquecidas.

Esqueço-me – sempre que posso – de tudo além do agora, separo-me em alguns pedaços dentro de mim para que possa um dia me compreender, e talvez, com sorte, dar à mim o que ninguém me deu: um pouco de calor.

Finjo-me feliz e satisfeito para que não me julguem falso, Minto-me sobre mim e meu passado para que não se incomodem em abrir seus casacos, trato-me como empregado de meu corpo para que não me chamem “um feliz renegado.”
Sinto em cada momento o esquecimento que me sangra os dentes, fragmento-me de forma que somente eu veja o que há em mim, mas eventualmente me deixo escapar em alguns pedaços bons, e em outros ruins também.

Aprendi morrendo aos poucos, a gratificar o esquecimento, de forma que eu não escorresse de mim – em morte – por cada memória, tendo em vista a sobrevivência que me desperta na noite escura e aconchegante, de forma que sentisse somente o que há de bom em esquecer, e ser esquecido.

No fim, eu também esqueci
Mas só o fiz por me faltar amor

Gino e eu

Uma vida pacata, num pago longito
Alguns bons amigos, tocando as vacas
Vivendo de latido, sem muito luxo
Pra fugir da cidade, do repuxo, ao meu rancho te convido.

Por um animal, arrancado do meu pago,
Longe do meu afago, de um dono bagual.
Sem demora, voltei, pro meu rancho, minha casa sem igual.
Mas sem apagar a brasa, pelo caminho lutei,
De saudade do mato, dos amigos, de meu dono
De quem não sofro o abandono, de quem o carinho é barato.

Vivendo sossegado, longe do bicho humano
A quem chegar, abano, pois o mundo lá fora é peleado.
Aqui sou eu, Gino, faceiro da vida,
Cuidando da lida, com meu jeito canino.