Mentevoando em versos curtos

Amigos invisíveis não ligam pra você

Afetos imaginários não pensam em te ter

O fundo vazio da garrafa de whisky

É uma lente de aumento

que só enxerga a solidão.

O amargo da ferrugem que desce pela garganta mandou perguntar:

“Onde está a sua criança?”

– Na minha mente, mas a tranquei no porão.

Quanta verdade?

Sou eu novamente escrevendo sobre coisas que não existem.

Eu gostaria de dizer que não sei porquê você ficou na minha mente, mas eu sei.

Você me lembra de um passado lindo que acinzentou, mas que já foi vermelho-vivo.

Hoje o que resta de vermelho desse passado são só as cicatrizes e a lembrança de um cabelo esvoaçando no farol de uma praia que talvez eu nunca mais visite.

E o que sobrou de vivo fui eu.

Garotas sempre vem e vão, transas, conversas, noites inteiras de trocas sexuais e não sexuais.

Mas você não desaparece. Você ficou.

E você tecnicamente nem existiu.

Eu queria ter um motivo dizer que você tá linda sem transformar isso em expectativa pro meu coração, queria poderia te dizer que essa dieta ayurvedica que você tá seguindo vai te fazer mal, gostaria de fazer parte desse seu grupo novo de amigos que são legais para você mas ricos e místicos demais para mim, gostaria de ter feito parte da sua vida por um pouco mais de tempo.

Hoje você veio almoçar no restaurante que eu trabalho, bagunçou mais o meu dia.

Hoje eu senti o cheiro dos teus cabelos de novo, preencheu meu olfato de algo que fiz força para esquecer.

Mas você sentiu meu perfume e isso eu sei que não vai te deixar deitar a cabeça no travesseiro e adormecer sem antes lembrar de mim.

Eu me abri rápido demais para você.

Meu passado e meus demônios domados te assustaram, naturalmente, eu também teria medo.

Se eu soubesse de todos teus demônios provavelmente não teria me deixado apaixonar, a gente se cansa com o tempo de gente quebrada demais.

Já pensei muito em ti.

Já fantasiei algo com você.

Já projetei sobre algo que nunca existiu.

Já deixei minhas projeções guiarem o que vi em você e o que havia imaginado para nós.

Mas hoje não resta nada.

– Ou eu queria que não restasse nada? –

Somente um presente comprado num site da China de forma muito prematura baseado em sinais de afeto imaginários, com os dizeres “Crazy cat lady”;

E um carinho que tentou romantizar um guardanapo com seu nome, o qual encontrei no chão abaixo da mesa na qual você sentou com seus amigos.

Um carinho que foi calado para que não me convencesse de que ele é mais do que realmente é, do que deve ser.

Um carinho.

Praça seca

Sento-me ao lado de estátuas na praça para transportar-me para o papel, pois gente, nessa praça lotada onde pedras vivas cruzam umas pelas outras, sem moldura e sem graça, não há.

Nunca fui nada

Não fui permitido ser

Pois quem me trouxe de volta à esse mundo

Não me permitiu que fosse.

Mas depois de todo o purgatório, inferno, ópio ou qualquer que seja o nome que sua fé queira dar – são todas iguais – entendi no centro desse corpo almático, que posso ser, foi só então que o poeta eterno, sublime e incompreensível tomou conta de mim.

Sento-me entre estátuas imóveis para escrever sobre estatuas vivas.

Onde é que há gente no mundo?

Estátuas me contemplam mais companhia do que elas, um pedaço de pedra verde esculpido me traz mais segurança e reflexão do que as máquinas biológicas e infinitas que cruzam umas pelas outras por aqui.

Ninguém sabe de ninguém.

Nem elas sabem dos pombos da praça.

Nem das pedras, nem das folhas, nem do além que tanto anseiam, nem do porque do brilho das penas, nem das penas das dores, nem do sangue que corre pelas estátuas vivas.

Elas não sabem de nada.

E também não sei.

Mas saber que não sei me faz ser dono do universo inteiro.

Veias geladas cheias de pó vermelho, líquido sem vida, amarras de roupas velhas demais para que se reconheçam dentro delas.

As estátuas vivas não sabem nem de si mesmas.

E não sabendo do que há dentro, poderiam saber até sobre o limite do cosmos, poderiam saber sobre a origem dos suspiros, sobre o que chamam de Deus, sobre o início e o fim de tudo.

Ainda assim seriam somente estátuas vivas.

Petrificadas por medusas que as olham de dentro, humanidades líquidas e derretidas diante da dificuldade de entender o que chamam de vida, o que chamam de felicidade.

A água jorra do chafariz, feito também pelas estátuas vivas, como tudo ao meu redor, inclusive essa estátua que se encontra ao meu lado lendo a divina comédia.

Precisei ver humor no sadismo do sagrado para que pudesse entender que os sinos da torre da igreja não dizem nada.

Precisei voltar minha ânsia de saber para dentro, compreender as minhas pedras, aquilo que me fazia ser estátua viva, para que pudesse quebrar o que me mantinha dentro de mim.

Hoje eu me permito sentir

E choro.

Se o vento do descaso me acerta

Dói

Pois é terrível sentir em um mundo insensível.

– Bom dia, posso te fazer uma oração?

Me pergunta a estátua viva que está profundamente perdida de seu Deus.

– Obrigado, mas eu sou minha própria oração e a faço por onde passo.

Habito meu corpo e sinto meu coração.

Se já fui estátua viva

Eu não lembro mais.

Eu nunca vejo você chegando

A vida frequentemente me entrega um dossiê das minhas memórias com você, pronto para me derrubar das formas mais desleais possíveis.

Passando pelo centro da cidade, lembro de uma loja de quadros onde costumo entrar para gastar dinheiro em decorações que até não muito tempo atrás eu considerava fúteis.

No meu fone de ouvido toca uma Playlist de Vaporwave ambiental, tudo instrumental pois eu ando meio sem saco para mensagens musicais, a Playlist tem mais de 200 músicas, costuma me ajudar a manter a mente vazia, algo como uma meditação em meia fase.

Entro na loja e procuro pelo setor dos quadros pequenos, identifico onde estão e andando até lá acaba a música que tocava no meu player.

Eu ponho a mão nos quadros para “folhea-los” e antes que eu pudesse pensar em que tipo de quadro eu queria, começa a tocar a faixa 2 do álbum Lilás.

Aquela faixa.

Daquele álbum lilás.

O nosso álbum lilás.

Qualquer música daquele álbum é o suficiente para trazer você para minha mente com a velocidade de um jato.

Mas a faixa 2 é uma crucificação de ponta cabeça, digna da pior blasfêmia.

Ouvi-lo sempre foi um ritual, mas precisou deixar de ser.

O acaso não contente com a minha desgraça, me diz: olhe para o lado.

Eu como ainda não aprendi a contrariar minha mente, olho.

Uma pilha inteira de quadros dos Simpsons.

É, dos Simpsons.

Lembro numa fração segundo de todas as noites na cozinha da casa da sua mãe, quando nunca sabíamos o que assistir na TV a cabo e ficávamos acompanhando juntos o trocar de canais até que chegasse a Fox e os dois se olhassem e dissessem juntos, sorrindo: “Simpsons”.

Então você assistia pela décima vez qualquer episódio que estivesse passando e me contava sobre a relação dos personagens daquele episódio com as histórias dos outros.

Eu nunca vejo você chegando.

O acaso sempre traz você com um pé na porta, de surpresa, quando eu consigo por alguns minutos me distrair da sua ausência.

Às vezes me permito me derramar no colo de outras garotas e chorar sem que elas saibam o porquê.

Mas ainda que eu nunca diga

Quando eu choro no colo de outra mulher

O motivo é sempre você.