Caloi preta-e-branca

Queimei quase tudo o que havia sobre mim no fogo da necessidade.

Os deuses que me deram trouxeram todos seus problemas, todos seus erros divinos demais para se consertar, todos seus pecados herdados que hoje jazem no céu azul. Que azul nunca foi.

Todos seus retornos sem vida, todas suas vontades.

Todas suas correntes que apertaram desde tão cedo…

– Momento doce nessa tempestade subterrânea –

que viver passou a ser sobre estar preso.

Mas minhas cinzas encontrarão um caminho pela neblina, os pneus velhos ainda seguram na estrada a bicicleta daquele garoto de pijamas azuis que nunca mais sorriu.

Minhas cinzas irão se espalhar para fora de mim no fim desse furacão que fez voar toda a estrada de tijolos amarelos. Nada foi como um dia eu achei que fosse ser.

Servirão de tinta para o céu que deve não ser tão limpo. Mas também deve não ser tão escuro das cinzas que cobrem meus olhos quando não me encontro.

As cinzas que me restam farão de mim, enfim, o caído e renascido Serafim. Expulso do próprio inferno por já ter encontrado luz demais para habitar nele.

Minhas cinzas irão secar as lágrimas-úmidas-de-mundo-triste da criança que um dia eu perdi. Do guri que abraçava seu cachorro, sujava seus pés e que eu suspeito que foi feliz.

Cinzas.

Cinzas.

Cinzas.

Minhas cinzas serão estrelas.

Mentevoando em versos curtos

Eu tive tudo e estive em todos os lugares necessários pra ter me tornado um daqueles pobres diabos que tem seus corações apodrecidos pelo rancor alheio ao longo do dançar da estrada.
E eu endureci.
Muito.
Mas não apodreci.
O coração do meu pequeno
conservou orgânica a vida.

A maioria apodrece.